Cartas do Paraíso

Foto1-Vitor-DamianiPictograma-teatroPeríodo: 
Local: Caixa Cultural Rio de Janeiro – RJ
Realização: 

Sinopse

No início do Renascimento, acima da Linha do Equador, homens desafiaram o mar tenebroso em busca de novos caminhos, de nova terras, quem sabe, um Paraíso. Abaixo da Linha do Equador, outros homens dançavam até seus corpos se tornarem leves e serem levados pelo vento, acima e além das grandes águas para alguma terra sem males, quem sabe, um Paraíso.

A bordo das grandes canoas com asas viajavam padres, degredados, cartógrafos, bufões, toda sorte de aventureiros. Na praia, os aguardavam homens, mulheres, xamãs e guerreiros. Na linha branca de areia se encontraram, e curiosos da diferença, devoraram-se, transformaram-se uns nos outros, amalgamados, mestiços, amedrontados e pasmos diante da morte.

O encontro desses dois povos de distintos imaginários engendrou um mundo novo, e agora, na iminência de um apocalipse – Pois é isso que significa o desaparecimento de povos inteiros, da aniquilação das riquíssimas culturas indígenas e do extermínio cruel de seus descendentes – resta a pergunta: O que foi feito do Paraíso? Alguém sabe onde fica o Paraíso? Qual utopia nos resta?

Onde foi parar o paraíso?

Cartas-do-Paraiso-Vitor-Damiani2“Cartas do Paraíso” tem como principal fonte dramatúrgica cartas escritas por jesuítas, exploradores e viajantes, nos primeiros tempos desta Terra de Santa Cruz, Pindorama ou mítica Hi-Brasil, naquela que foi a “primeira aventura globalizante da humanidade”.

A radical diferença entre as duas visões de mundo foi o ponto de partida para a criação de uma poética tropicalista, pautada na mestiçagem, no encontro, na tensão e no confronto de imaginários tão ricos: o de Portugal renascentista e mercantilista e a cultura indígena brasileira, sendo ela mesma extremamente múltipla.

Apoiados em pesquisas bibliográficas, iconográficas e sonoras, procuramos construir uma encenação a partir dessas informações, mas que não buscasse uma reconstrução histórica. Interessa-nos acompanhar as metamorfoses da idéia de Paraíso, projetada pelo imaginário europeu na terra de Pindorama (Terra de Santa Cruz), e buscar a reverberação disso na alma brasileira, acelerando a passagem do tempo, atravessando o movimento modernista (bradando “tupi or not tupi!), o tropicalismo ( “aqui é o fim do mundo”, de Torquatro Neto) até desembocarmos na complexidade atual da crise ambiental, da crise ética, neste cenário pré-apocalíptico de um mundo globalizado e bárbaro. Revisitamos tais relatos não para recontar suas histórias, mas sim para desorganizá-los na procura de novas possibilidades, a procura de uma nova utopia. Por fim, é importante não esquecer que as utopias tem o poder de resguardar nossa humanidade.

Alexandre-caetano-e-Moacir-FerrazCena e Dramaturgia

Apesar do criterioso apoio na pesquisa histórica, Cartas do Paraíso não tem compromisso com nenhuma fidelidade aos fatos. Afinal, o que importa, para o artista, são versões…

Todo o material recolhido em livros, artigos e documentos, as viagens à campo, os objetos escolhidos, compõem um caudaloso material com o qual a dramaturgia de cena é tecida, ora com palavras, ora com imagens, ora com sonoridades e,sobretudo, com a irradiação dos corpos.

Como nos trabalhos anteriores da Companhia, tudo começa, tudo brota, tudo passa pelo corpo. Nuvem ou deus, onça ou padre, floresta ou nau. O corpo do ator é o canal principal por onde diferentes texturas tomam vida: o mar tenebroso, a mata, o rio e a infinita linha de areia, limiar entre dois mundos, ponto de conjunção entre duas imagens de paraíso: a dos índios, além do mar, a dos viajantes, na nova terra.

Agradecimentos

Associação Artística Cultura Nhandeva, Berta Teixeira, Calixto de Inhamuns (pelas conversas sobre dramaturgia), Cláudia Echenique (pela parceria desde o início), Evaristo de Miranda, Júlia Pascali, Vincent Carelli, Vídeo nas Aldeias e Marcelo Santos (Filme Corumbiara), Maurílio Antonio Ribeiro Alves, Vivian Nuñez Medina, Erika Cunha e Sergio Silva.